terça-feira, 2 de novembro de 2010

A Brisa e o Papel


Desenhei uma casinha de papel,
Nela tinha uma rede de papel,
Nela tinha uma mulher de papel
De leveza e delicadeza de caderno

Desenhei um eu grande e barbado,
Com um sorriso iluminado,
Com um coração dourado
De baixo do desenho do terno

Desenhei minha própria felicidade
E tudo aquilo de que ainda vou sentir saudade
Desenhei tudo aquilo que chamo amor

E quando parei e olhei minha imagem
A brisa dançando ali só de passagem
O papel da minha vida o a brisa levou

Momento


Eu não te amo ontem
Ontem não te conhecia tão bem
Eu não te amo amanha
Amanha esta longe de mais
E eu não posso te dar a certeza
De que ele vá existir
Eu te amo hoje
Eu te amo agora
Pra ser mais especifico
Eu te amo neste exato momento
Pois é o único momento
Que posso te amar
E é só isso que posso te dar
Meu amor neste momento
E a única coisa que te peço
E que me ame
Mais não preço me ame simplesmente
Peço que me ame hoje
Peço que me ame agora
Peço do fundo do meu ser
Que me ame neste exato momento

Intimo


As orações das orações me enraivecem,
Mais sobreponho a incapacidade da minha raiva
As grades que me levam ao matadouro.
Afinal, somos ovelhas de lã de ouro.
Que cidade não quer seu próprio humano pensante,
Rações inacabáveis desta maquina dominante:
-Dêem mais pensamentos a este magrelo porco,
Muita preguiça para que fique gordo sem esforço.
E os pensamentos correm por baixo do meu couro
Como fosse eu um defunto encoberto de vermes que criei,
Que amei que me dei por completo
Como a virgem se da ao feio sofá sujo da sala
Coberta pelo corpo de seu único amado predileto.
Eu me dei, e agora me quero de volta.
Abri mão de mim pra não ser só e hoje já não sei quem sou
Me matei , e renego o eu assassino que sobrou
E vendo que já não posso mais me ressuscitar
Mato-me a este eu que me matou, tentando mudar
E viro eu assassino do assassino eu que me matou
Enquanto isso, me dei as costas, o meu eu correu,
Sumiu pelas ruas o único passado meu que se amou
Tento correr metálico pelas ruas feitas de carros.
Rua feita para que os postes tenham alguma utilidade
Alem de serem alongadas estruturas metálicas
Desnecessariamente reluzentes da cidade.
Cidade feita para as ruas que tento desesperadamente correr
Devorem a mascara cobradora de minha idade.
Corro inutilmente sem respostas por que minha rua feita de carros
Foi devidamente trocada por uma esteira
Que comprei pra sala correr semana passada
Antes de comprar minha morte rolante na escada
Minha própria gordura saturada de TV e besteira.
Quero um cigarro, mais ainda não sei fumar.
Você promete me ensinar se eu pular do carro e me esborrachar?
Você me iludiria se mais uma vez eu não conseguisse me matar?
Você juraria que é infindável esse seu amar?
Eu conheço um penhasco próximo deste lugar
Você gostaria de ir lá pular comigo
Mais do que nunca Sinto vontade de pular,
Mais do que qualquer outra vontade que já tenha sentido,
É a única coisa real, cair sem querer voar,
É a única lógica que não precisa ter sentido
Mais não quero chegar ao chão tão rápido assim.
Quero o infinito de nos dois caindo dentro de mim
Se eu te pedisse, você casaria comigo esta noite?
Se você pulasse do penhasco comigo eu te prometeria:
Que quando você estivesse dormindo não te mataria.
Que quando você estivesse com outro não brigaria.
Que quando você estivesse correndo não atiraria.
Há eu te prometeria
Que quando você estivesse morrendo junto eu me mataria
Mais eu sei sim...
Eu sei...
Puta merda eu sei que você jamais morreria por mim.

Hoje eu morro


Hoje eu morro, e imagino:
Na hora em que hoje eu morresse,
O que eles, pensando não me conhecer, fariam;
O que você, fingindo ter me conhecido, diria;
O que eu, vendo-te me ver morto, pensaria.

Mas hoje eu morro.
Só me cabe imaginar
O quanto, a me ver morto, você sofreria,
Quando você viraria as costas.
E quando você me esqueceria.

Se ao menos como os outros fizesse
Se dessa sombra solitária da poesia me desfizesse
Se um último sentido a meu último dia desse
Mais não o faço, nem desfaço
E nenhum sentido dou.

Mais mesmo que assim fosse
Não adiantaria o esforço...
Pois hoje, hoje eu morro.

Vil trovador


Desisto das minhas ilusões
De amores, de sonhos, de familiares,
Das lutas que guerreiro travava
Em plena virilidade de meus ares

De meu corpo já frágil abro mão,
Abro mão de minha alma em cantiga,
E de tu, perfeição em mulher que imaginei
Abrindo mão, abro mão de minha vida

Minhas feridas que antes se fechavam
Na brisa da aurora após negro anoitecer,
Mais fortes com o vento racham-se agora,
De sangue me secam até quase morrer.

Há febre em meu hálito... Eu tremo.
Fervente e pálido, tua pele deliro.
Quem me dera fosse tremulo em teu colo,
Que fosse de teu corpo o fogo que espiro

Mais o suor que hoje banha minha cama
Não tem outra parceira que a desilusão,
Pelas graças tuas, amante mulher,
No delírio ofegante não ter em paixão

Queria ao menos dizer-me merecedor
De ti, ninfa em perfeição que sonhei.
Merecedor de teu corpo fervente
Teu lábio demente, pelos quais me humilhei

Mais nem disso posso dizer-me agora
Ao lembrar o passado, me resta só dor.
Fui reles pedinte da fortuna dourada,
Na sombra da lua fui vil trovador.

Morro culpado por desejar mais que tudo
Este amor, do qual não mereço nem o direito
De poeta errôneo sofrer em meu leito,
Quando o ar já me falta e me falha o peito.

Destes míseros segundos que me restam
Que passam como a areia do deserto ao vento
Deixo no papel poesia, para que você saiba
Que foi teu meu ultimo pensamento.